Obras antissociais: o lado B do trabalho assistencial das igrejas evangélicas fundamentalistas

Vistos como a ala “do bem” das congregações radicais, seus trabalhos sociais impõem uma visão de mundo e direitos humanos a seus atendidos. E não é a da Constituição do Brasil.

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18 October 2018, Brazil, Rio de Janeiro: A man with a T-shirt with the inscription "Bolsonaro" reads the Bible during the last evangelical mass before the election in Brazil. Bolsonaro is receiving an additional boost from the evangelical movements in Brazil, which support his conservative agenda. Photo: Ian Cheibub/dpa (Photo by Ian Cheibub/picture alliance via Getty Images)

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Existe um lado positivo no reacionarismo evangélico fundamentalista? A pergunta convida uma concessão. E essa concessão costuma ser quase sempre a mesma: que essas igrejas fazem um trabalho social importante ao atender aos mais necessitados e prover uma rede de suporte a eles. Ocupam o lugar do estado onde este se mostra ausente.

Impedir que alguém não morra de fome é, sem dúvida, uma coisa boa. Mas por que a conversa deveria parar por aí? O que acontece depois que o necessitado, compreensivelmente, pega o pão sem ver a mão? Foi um almoço grátis? A história acaba nisso? Não há consequências? Quem as igrejas evangélicas fundamentalistas tentam salvar da penúria? E por que querem salvá-lo?

“O que passa batido a quem faz elogios à obra social fundamentalista é que há uma teologia por trás, que parte de um pressuposto pessimista”, afirma o teólogo Ricardo Gondim, pastor líder da progressista Igreja Betesda. Desvinculada da Assembleia de Deus em 2008, ela conta com 5 mil membros em três estados e aceita abertamente membros LGBTQ+. “É a teologia da queda e do pecado original, que diz que as pessoas são inerentemente pecadoras e nasceram debaixo da ira de Deus”.

Salvar um ser humano caído é diferente de salvar um ser humano com valor inerente. Começa pelo propósito principal. “O que realmente importa é salvar almas, evitar que as pessoas sejam punidas eternamente”, afirma o pastor. “Essas intervenções sociais não são legítimas, têm uma intencionalidade teológica por trás, que nunca é transparente.”

A obra social fundamentalista, é, em primeiro lugar, uma missão. É um erro interpretar de forma materialista (atender uma necessidade deste mundo) o que é uma obra missionária, que atende às necessidades “do outro mundo”. O propósito principal de uma obra social fundamentalista não é sanar males sociais, mas criar mais fundamentalistas.

Vinícius Esperança, antropólogo da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, foi testemunha desse processo. Em sua pesquisa, que resultou na dissertação O foco de todo mal: estado, mídia e religião no Complexo do Alemão”, Esperança acompanhou obras em favelas, onde pastores e policiais militares se aliaram para criar uma nova ordem. “Um conselho evangélico decidiu que, para receber benefício social, a pessoa precisava participar do culto. Vai no culto, depois recebe ajuda. E sugerir qualquer coisa era comprar briga. É um modelo de cruzada, cujo objetivo final é a evangelização”, descreve Esperança.

Dessa forma, fundamentalistas são criados. E passam a ver as coisas de forma diferente. Assim como fundamentalistas têm explicações para as coisas físicas que destoam dos consensos da ciência, eles também têm suas explicações próprias para os males sociais, que divergem das interpretações feitas pelas ciências humanas. Neste caso, a explicação é: falta de Jesus na vida.

A resposta cabe a perguntas que todo mundo se faz, como “o que causa a miséria?” ou “o que causa a criminalidade?”, até aquelas que só um fundamentalista faria, como “o que falta na vida de quem tem orientações sexuais não heteronormativas ou de quem vota na esquerda?”

Essa mudança rumo ao ultraconservadorismo, promovida pelas ações dos “defensores da família”, pode, na realidade, destruí-las. Isso vem acontecendo nos conselhos tutelares, organizações voluntárias com objetivo de  proteger as crianças de abusos. O que acontece é que, hoje, os fundamentalistas definem o que é abuso a seu gosto.

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Bolsonaro contou com o palanque de igrejas fundamentalistas.

Evaristo Sa/AFP via Getty Images

No Conselho Tutelar de Araraquara, interior de São Paulo, Kate Ani Beliantini, mãe de uma adolescente de 12 anos, foi denunciada pela avó, evangélica, e o conselho, de maioria também evangélica, acatou a denúncia. O “abuso”? A participação da criança no ritual de iniciação no candomblé.

Uma história quase idêntica foi revelada em outubro, em Olinda, Pernambuco. Um pai denunciou a mãe pelo mesmo motivo e conseguiu a guarda exclusiva da criança, mesmo não tendo participado de sua criação até então. “Muitos conselhos tutelares são objeto de desejo de lideranças evangélicas”, diz Esperança. “Estão sendo usados como uma extensão desse projeto missionário já faz um tempo. É também um espaço para disseminação de seu projeto de cidadania.”

Há um lado ainda mais mórbido na “beneficência fundamentalista”: a cura gay, feita, em grande parte, por clínicas sem fins lucrativos em locais remotos. Há todo um ativismo de psicólogos evangélicos para que o Conselho Federal de Psicologia reconheça como válido o tratamento de algo que não é doença. A homossexualidade deixou de ser considerada um problema de saúde pela OMS há mais de trinta anos.

Mas os psicólogos “de Cristo” seguem com o falso tratamento, banido pelo Supremo Tribunal Federal. Vítimas denunciam clínicas mantidas por igrejas como verdadeiros campos de tortura. Em alguns casos, a clínica religiosa, supostamente de tratamento contra drogas, aproveita-se de acusações falsas dos pais para “tratar” os filhos LGBTQ+ à força.

Os direitos humanos que os fundamentalistas desejam não estão na Constituição. Eles rejeitam esses direitos.

E há um terceiro lado da dissolução de famílias pela “caridade” fundamentalista, que é o da deseducação sexual, promovido por um ativismo travestido de “proteção das crianças”. Ao tornar qualquer conversa sobre sexo tabu e tentar excluir a educação sexual das escolas, as igrejas fazem o jogo dos abusadores. O estigma de ter sofrido um crime sexual, já tão grande na sociedade, é ainda mais marcante nessas igrejas, onde as pessoas preferem desconversar. Ou temem represálias ao contestar suas autoridades religiosas ou, em alguns casos, denunciar os próprios pastores envolvidas em abusos.

Defender “a família”, para os novos cruzados de Cristo, é defender que pessoas LGBTQIA+ não possam formar famílias. Permitir a adoção por pessoas assim é, ao fundamentalista,  uma violação a um “direito humano da criança”.

“Eles têm uma concepção toda particular de direitos humanos”, afirma Vinícius Esperança. “As pessoas ridicularizam Damares, acham que a pauta dos costumes é cosmética, mas está no cerne, na base, e ela é a ministra mais popular de Bolsonaro.” Damares estar na pasta de Direitos Humanos não é mero escárnio. É um plano.

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A ministra Damares ocupa o centro da agenda bolsonarista ultraconservadora.

Foto: NurPhoto via Getty Images

Os direitos humanos que os fundamentalistas desejam não estão na Constituição. Eles rejeitam esses direitos. Os direitos deles são como o “direito de nascer e crescer num ambiente ‘moral’”, o que significa censurar exposições de arte. O “direito a não ser exposto à blasfêmia”. O direito a opinar que gays e candomblecistas são possuídos pelo demônio. O direito a ditar quem vai para o inferno.

A pessoa não é convertida apenas a uma religião diferente da que herdou dos pais. É convertida a um projeto político diferente da democracia de 1988. É o que Esperança chama de “cidadania conservadora”. “Um modelo de cidadania não contestatório, que não faz críticas ao modelo de segurança pública militarista de direita. E com todas as pautas de gênero, costumes, aquela cara de coisa bolsonarista”, diz o antropólogo. É a cidadania de quem respeita a autoridade como divina, algo constituído por Deus. É a cidadania dos “direitos humanos para humanos direitos”.

Essa ideia de salvação pela mudança pessoal é onde igrejas fundamentalistas e a direita secular se encontram.

As críticas a esse modelo de cidadania conservadora dificilmente prosperam, porque encontram sempre o argumento de que é impossível ir contra as ações sociais. Mas “pelo menos estão fazendo algo”, certo? A pessoa que abandonou o álcool ou as drogas pela igreja resolveu um problema. Também diminuiu as despesas com festas. Regularizou seus documentos, formalizou sua união, com benefícios legais. Arranjou um emprego de outro evangélico. Não morreu de fome. A pessoa mudou de vida e se sente melhor. Quem vai julgar? Melhor deixar tudo como está, porque, do contrário, teríamos mais fome e violência.

Caímos então em outra armadilha. Essa ideia de salvação pela mudança pessoal é onde igrejas fundamentalistas e a direita secular se encontram. É parte do pensamento conservador antiestatal que considera obras sociais privadas religiosas um bem em si mesmas. Um bem tão grande que poderiam substituir totalmente qualquer serviço social estatal.

Ao converter o beneficiário de sua caridade, o religioso conservador inicia sua doutrinação dizendo ao ajudado que ele precisa se livrar do que quer que o tenha “levado” a sua situação de miséria. Na visão do religioso conservador, ganhar subsistência “por nada” na Caixa Econômica Federal patrocina atitudes e comportamentos que seriam a razão para a pobreza.

Essa é uma ideia política conservadora secular. Não é nem de longe exclusividade de evangélicos fundamentalistas. Nunca faltou parente em mesa de Natal para dizer que o Bolsa Família estava arruinando os pobres, fazendo-os mamar no estado e se “encostar”.

Pastores reacionários põem a culpa em Satã, que forçou o recém-convertido a fazer coisas erradas. E pregam que, depois de exorcizado e com a chance de mudar de vida, se a coisa continuar a dar errado, a culpa é… bem, dele mesmo. De quem falhou em ter fé ou se portar como um cristão. O que casa com a visão direitista de que diferenças sociais são causadas por (falta de) mérito. Mérito enquanto cidadão capitalista, mérito enquanto cristão.

O que a igreja fundamentalista formou no Brasil são cidadãos que discordam da ideia de direitos humanos presentes na nossa Constituição. Para os quais a Constituição “socialista” é um impedimento. Impedimento à obra de Deus, pois facilita às pessoas continuarem no caminho do Diabo com concessões “gratuitas”. Impedimento à justiça de Deus, pois os “direitos humanos” entram no caminho da polícia e exércitos e os impede de agir em sua missão divina. Impedimento ao “direito humano” real, que é nascer para servir a Cristo.

Você tem, enfim, um cidadão teocrático, autoritário, conspiratório, anticientífico, individualista. Um ultraconservador. O pobre contra assistência social. A mulher contra o aborto e educação sexual. O “ex” gay que agora ajuda aos outros a se “curarem”. O famoso, supostamente incoerente, pobre de direita, que vai concordar que a PM entre atirando na favela.

E, se algum inocente sofrer, bem, é como as mortes causadas pela pandemia: Deus já escolheu quem morre, e o Mito no Planalto nada tem a ver com isso. “A explicação é dada a partir dessa noção de que há um Deus que está aviltado”, afirma o pastor Gondim. “Deus está indignado com o pecado humano e Ele tem todo direito de, como os evangélicos brasileiros gostam de dizer, pesar a mão. Ele pesa a mão de uma maneira indiscriminadamente caprichosa. Seus critérios, a gente nem sabe quais são, mas são Dele, e eu não posso reclamar.”

O resultado está nas urnas, para a perplexidade de uma esquerda economicista que acha que tudo se resume a uma questão de atendimento a necessidades materiais. Nas eleições municipais, Bolsonaro foi um azarão. Não é impossível ver os fundamentalistas virando as costas a ele como fizeram com Flordelis: agora ela é “feiticeira” e todo mundo finge que nunca se inspirou em nada do que disse ou cantou. Bolsonaro, a gente espera, um dia passará. O ultraconservadorismo fundamentalista? É uma luta de gerações. Pergunte aos americanos dos estados que deram maioria a Trump.

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